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Domingo à tarde

Não gostas, queres ver!

05.02.18

Até ao fim da vida


É para lá do rio Tejo que as diferenças acentuam-se, num banco de jardim, rodeado aqui e ali de montes alentejanos, e onde o vento susurra levemente e o silêncio se instala.

- António, não vens almoçar?

- Já vou, tenho tanto tempo!

- Mas precisas de te alimentar, homem.

- Eu sei, e hoje são migas e sopa de cação.

- Adoro!

- Também cabes na mesa, queres vir?

- Quero.

Comer é passatempo, quando o tempo não passa. Degustar a vida com o palato é das poucas coisas que faz pessoas como o António viver e sentirem-se vivas.

- António, há muito mais que possas viver?

- Há, mas isolaram-nos aqui.

- Não eram uma povoação isolada?

- Éramos, mas o comboio passou aqui.

- Aqui?!

- Sim, metade da aldeia trabalhava para os comboios mas como o dinheiro não passa aqui, os turistas não vêem.

- Só os autocarros...

- É...as carreiras só vão até Évora para que possamos ver gentes e coisas. Aqui vai morrendo tudo.

- E se eu tentasse mudar isto por aqui?

- Tu? - riu-se - sempre aprendi que tudo tem um fim, e esta aldeia está condenada.

- Que esperança tenho?

- Faz como os outros...vai para Lisboa que lá tens de tudo.

E folheia com as suas mãos enrugadas o Diário de Notícias. Tudo é com vagar, até ao fim dos seus dias.